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Um conto de Natal



Um conto de Natal

Eu estava em São Francisco, a poucos dias do Natal. As lojas já começavam a ficar lotadas e multidões esperavam impacientemente pelos ônibus e bondes no fim da tarde.

Quase todo mundo carregava pilhas de pacotes e o cansaço era tanto, que eu comecei a me perguntar se os inúmeros amigos e parentes mereciam mesmo aqueles presentes e tanto sacrifício. Esse não era bem o espírito de Natal que eu desejava.

Finalmente fui literalmente empurrada para dentro de um bonde superlotado e a idéia de ficar ali como sardinha em lata até chegar em casa foi se tornando insuportável. O que eu não daria por um lugar sentada!

À medida que algumas pessoas foram descendo, consegui respirar melhor e comecei a notar os outros passageiros. Com o canto do olho, vi um menino pequeno, de pele escura - não poderia ter mais de seis anos - puxando a manga de uma mulher e perguntando: "Quer se sentar?" Ele a levou até o assento vago mais próximo e partiu em busca de outra pessoa cansada.

Assim que um cobiçado lugar surgia, ele rapidamente se enfiava em meio àquela humana para procurar mais uma mulher carregada de pacotes e a levava até o assento.

Finalmente, quando senti um puxão em minha própria manga, já estava completamente fascinada pelo menino. Ele me pegou pela mão e com um sorriso do qual jamais vou me esquecer disse: "Venha comigo." Mal tive tempo de agradecer, pois ele já partia em busca de mais uma necessitada.

Os passageiros do bonde, que em geral viajavam olhando para a frente e evitando os olhares dos vizinhos, começaram a trocar sorrisos. Uma mulher comentou comigo o cansaço que sentia, e três pessoas se abaixaram ao mesmo tempo para apanhar um pacote que caíra no chão. Em pouco tempo, as pessoas conversavam. Aquele menininho havia realmente mudado alguma coisa - todos nós nos sentíamos envolvidos num sutil sentimento de aconchego e o resto do percurso foi puro prazer.

Não percebi o menino descer. Quando olhei, ele não estava mais ali. Quando cheguei ao meu ponto, saltei do bonde pisando nas nuvens e desejei sinceramente ao motorista "Feliz Natal". Pela primeira vez percebi como as casas da minha rua estavam lindamente iluminadas e pensei em reunir os vizinhos para um chá antes do fim do ano. Eu me sentia de bem com o mundo, feliz com os presentes que comprara e com a alegria que eles dariam.

E de repente, o Natal deixou de ser uma estressante festa de consumo para adquirir seu verdadeiro sentido. Mais uma vez era um menino que, com seu gesto de amor, anunciava nossa verdadeira vocação.

Livro: Histórias Interessantes
Autor: Assis Almeida
Editora: Edições Livro Técnico

Refexão: 

"O presente não é um passado em potência, ele é o momento da escolha e da ação."
(Simone de Beauvoir)

Vamos parar alguns minutos para refletir?!

A leitura desta metáfora me fez pensar nas escolhas que muitas vezes as pessoas andam escolhendo para ficar em seus pensamentos.


Como na metáfora a mulher resolveu olhar para o lado e visualizou a beleza da compaixão, do amor ao próximo, da entrega ao outro sem nada esperar... assim ela tirou de cena o cansaço , a correria frenética do final de ano e entrou em contato com o amor, com a troca, e a entrega ao outro.

Essa é uma fórmula mágica, tão simples, porém muitas vezes é difícil de ser seguida! Pois, faz com que você entre contato com as ''cores'' da vida. E entrar em contato com essas cores da vida às vezes é muito difícil.

Muitas pessoas foram treinadas diante da vida para enxergar as dores, os problemas, as doenças, o que está faltando, e assim não aprendem a olhar para o lado, a oferecer o carinho ao outro, a não sentir as "cores da vida".

A vida assim vai passando e a pessoa vai passando nela, sem amar a vida, a si, e aos próximos!

Experimentar essa sensação para algumas pessoas é algo novo, e que muitas vezes é muito difícil até mesmo por ser Novo.

O Novo é algo que pode ser visto como assustador, e também pode ser visto como desafiador!

Gostaria que vocês pensassem nas escolhas que você está fazendo... ficar com o novo, ou simplesmente ficar com o conhecido? se mantendo na zona de conforto?

E será que você sabe ficar com o novo? Como é visualizar e cheirar o novo? Assusta? Desafia?

Pensando nessa época do ano nada melhor do que pararmos para visualizarmos essa compaixão do natal, esse amor aos outros, as trocas, aos ''abraços" que você vem dando em sua vida. O que você vem "agarrando " na sua vida? Quais os pensamentos que você vem dando espaço?

Pense reflita, e seja sincero com você! Busque o agora para ser feliz, o amanhã é longe demais e o passado já passou! Aproveite seu presente, pois por mais difícil que ele possa ser ainda sim é um Presente!!!

"Somente o presente é verdadeiro e real. O presente é o tempo realmente pleno e sobre ele repousa exclusivamente a nossa existência."
(Arthur Schopenhauer)


Daniela Cracel

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